Reflexões no Paranoá  


Darwin poderoso

Donaldo Raupp ("Geometrical analysis fo shell coiling", Journal of Paleontology 40: 1117-1190, 1966) reduziu o processo de geração de conchas aos seus três fundamentos geométricos: a taxa de translação com relação ao eixo; sua taxa de expansão e a distância com relação ao eixo. Qualquer pessoa que já tenho tido uma concha em espiral nas mãos saberá reconhecer a imagem geométrica dessa simples produção da Natureza. Essas três variáveis definem três eixos, o espaço das conchas possíveis, o morfoespaço, no conceito de Raupp. Ou seja, o espaço de todas as conchas possíveis, a partir dos três parâmetros geométricos de sua construção. Curiosamente, a distribuição das conchas reais não é aleatória no morfoespaço, nem há manchas separadas no morfoespaço. Elas se "espalham" segundo os três eixos precisamente como se um organismo tivesse gerado todos os demais, sujeitos às variações em seus parâmetros. Graficamente, é uma variada mancha espalhada em torno da junção dos três eixos. A Mãe Natureza é racional, mas não arbitrária.


Escrito por wooddays às 17h23 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Uma sugestão de Gauss

"Claramente é = 0 se a variedade representada é plana, ou seja, se o quadrado do elemento linha é redutível a √∑ (dx)²  , e pode ser visto como uma medida da divergência da variedade planitude nesse ponto e nessa direção da superfície. Multiplicado por -3/4 ele se torna igual à quantidade que o Conselheiro Privado Gauss nomeou a medida da curvatura de uma superfície... Variedades cuja medida de curvatura é zero em todos os seus pontos pode ser vistas como um caso particular das variedades cuja curvatura é constante em todos os pontos" (Riemann, pág 418 e 420)


Escrito por wooddays às 17h05 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Céus de Brasília


Escrito por wooddays às 14h22 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Quando x tende a zero, o sábado tende à perfeição

Choveu toda a noite, Brasília está encoberta e úmida: o melhor clima do mundo. Mais de duas horas ouvindo e dançando a música de João Sebastião, essa ladra da lágrimas. "Ah! quão passageira, quão de somenos", coro delicioso, seguido da mais bucólica das árias dizendo que passam os dias do homem com a corrente de um córrego. Depois do coral proclamando, "Mundo adeus, estou cansado de ti", sopranos delicados: no céu terei paz, alegria e felicidade. Depois, a 28, dançante, dançante e por fim a ária do "pensamento". "Pensa em nós", canta o menino; eu medito. Quitutes árabes, Lojas Americanas: benditos os dias em que compramos travesseiros para bem dormir e carros de bombeiro fabricados na China para não nos deixar bem dormir. Primeiro final de semana em casa em muito tempo. Evoé.


Escrito por wooddays às 14h20 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Apenas uma idéia

Leio e releio o breve artigo de Bernhard Riemann sobre a geometria. Há nele apenas uma idéia, que nada tem de intrinsecamente matemática: não existe um observador que meça, de um ponto de vista privilegiado, o espaço. O observador está dentro do espaço, sua geometria é a mesma. O cálculo dos elementos dessa geometria, portanto, é claramente arbitrário e qualquer escolha só pode ser experimental. Claro, se queremos descrever o mundo. Se não, todas as geometrias são possíveis, todas as medidas também são. Tenho a impressão de que todo o resto, Lorenz, Einstein, etc, está implícito nessa idéia, solitária idéia.


Escrito por wooddays às 12h57 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Skarloey

A pequena locomotiva vermelha, com sua face alegre, está na mesa, ali à direita do teclado. Já com os cantos sem tinta de tanto cair no chão, nos "acidentes" que Horácio inventa. Assiste no youtube os vídeos dos nuts internacionais e suas coleções infinitas de Thomas e seus Amigos, com batidas, dramas, explosões. Horácio acredita e fica contando as histórias para ele mesmo. Não olho muito o brinquedo do menino, também não leio mais relatos sobre o Holocausto dos judeus húngaros, nem ouço mais a Cantata n.8. Estou ficando velho e sentimental.


Escrito por wooddays às 20h35 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Mais uma dica para o Alberto

"Se alguém considerar o objeto de seu pensamento como variável em lugar de entender tal conceito como determinável, então esta construção poderá ser caracterizada como uma síntese de uma variabilidade de n+1 dimensões a partir de uma variabilidade de n dimensões e de uma dimensão... Determinações de medida requerem que a magnitude seja independente da localização, um estado de coisas que pode ocorrer de mais de uma forma." (Riemann, págs 414 e 415).

"As variedades nas quais, no plano e no espaço, o elemento linha pode ser reduzido à forma √∑ (dx)² constitui, portanto, somente um caso particular das variedades sob consideração aqui. Elas merecem um nome particular que chamarei de planos - aquelas variedades nas quais o quadrado dos elementos linha podem ser reduzidos à soma os quadrados dos diferenciais totais. Para obter uma avaliação das diferenças essenciais das variedades representáveis nesta forma prescrita é necessário remover aquelas que surgem do modo de representação e isto é feito por meio da escolha de quantidades variáveis de acordo com um princípio definido" (pág 417).


Escrito por wooddays às 16h17 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Akecimento global como religião laica

Nào inventei nada, apenas previ: com a perda de apoio popular, as lideranças do akecimento global iam se voltar para o campo do misticismo. Al Gore, com dificuldades para pagar das contas de eletricidade de sua mansão, anuncia em seu novo livro (sic) que racionalidade é coisa do passado. O foco não pode ser mais na ciência: é preciso comprometimento moral. Leia-se, religião laica. A ONU, sempre em busca de receitas, já está promovendo "diálogo inter-religioso", mas ainda sem cobrar entradas. O engraçado é que o fundamentalismo islâmico já descobriu o filão: o grande terrorismo são as grandes fábricas, das grandes corporações, que fazem a grande poluição. Fundamentalismo sem hipérboles, como se sabe, não existe. Como as grandes fábricas estão na China, temo pelo futuro dos fundamentalistas em uma prisão chinesa. O pessoal do PCC é realmente liberal e não acredita em almoço grátis: o sujeito paga pela munição usada em sua execução. Balanced budget é isso aí...


Escrito por wooddays às 14h53 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Música pop é sempre diversão garantida

Almoço domingueiro na casa de um colega da patroa. Não digo de onde, senão o truque perde a graça. Vasta oferta de comida alemã e a coisa começou boa, com as Suítes Orquestrais e mesmo uma audição inadequada da Paixão segundo João em meio a salsichas e chucrute. O evento era no Brasil e logo decaiu. Fomos apresentados a variações de rock germânico e mesmo hip hop germânico. Sem ter como me defender dessas geniais criações do espírito humano, por conta do consumo excessivo de batata, repolho e embutidos, não me restou senão ouvir a chorumela na língua de Joseph Goebbels. Fui informado que o hip hop germânico faz "crítica social"!! Que seus praticantes, mal encerrado o segundo grau, escrevem poemas para condenar privilégios de grupos com necessidades especiais, a crise do welfare state e para pontificar no combate ao akecimento global. Tudo isso ao som de sirenes, janelas quebradas, gritos guturais e outras inovações pós-adolescentes. Saí de lá encantado diante do brilho e da genialidade de tal produssão kultural. Sinto escrever isso, mas a verdade é que a Europa se curva ante o Brasil mais uma vez.


Escrito por wooddays às 11h21 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Back in Brasilia

Duas horas de vôo tranquilo, séries de Fourier, leituras avançando: o final de semana promete...


Escrito por wooddays às 09h59 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Anticapitalismo, doença francesa

Outro livro que reencontrei atrás das estantes foi o célebre Mitologias, do Rolando Barthes, publicado originalmente em 1957. Minha versão, contudo, é em inglês, o que garante que certos aranzéis franceses podem ter sido filtrados pela tradução. O livro é bom, tem momentos inventivos, mas o anticapitalismo global do texto é, visto dos dias atuais, profundamente engraçado. A cultura francesa, depois de ter inventado a modernidade, parece estar em revolta permanente contra a razão, o bom senso e a realidade. Essa postura assegura bons momentos de invenção, mas, como lembram os cientistas da mente, isolamento leva à paranóia. Bom, o Deleuze chegou a escrever que a esquizofrenia era um produto do capitalismo... Fico imaginando aqui os produtos do socialismo...


Escrito por wooddays às 11h26 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Simbologias simbólicas e outras aventuras do espírito humano

Às vezes, de onde menos se espera sai alguma coisa. Fuçando na biblioteca, achei um velho presente da Cláudia, o Rethinking Symbolism, do Dan Sperber, editado na França em 1974 e na versão inglesa no ano seguinte. Fui dar uma lida porque caso tivesse alguma elocubração pré-pós-estruturalista sobre simbologias simbólicas ia para o cesto de doações de livros mantido por um posto de gasolina aqui perto. Puro preconceito: Sperber destrói os aranzéis da antropologia tradicional sobre simbologias de povos primitivos e sua ingênua sugestão de que estamos diante de construções complexas. Aquela velha ilusão de que um indígena perdido à margem da história, comendo carne mal cozida, tem uma "vida interior" mais complexa do que a do homem civilizado. Não chega a fazer como aqueles pesquisadores que desmoralizam as fraudes dos xamãs de beira de estrada, mas ele desmonta as ilusões sobre o simbolismo simbólico associado a certas práticas culturais. Vamos encarar os fatos: os seres humanos praticam atos sem qualquer sentido, por pura falta do que fazer ou miolo mole. Estava achando o máximo quando o Sperber aproveita umas dez páginas para desancar o simbolismo simbólico da psicanálise e as maluquices da interpretação dos sonhos, um esforço inglório para desvender a vida mental da "vizinha gorda e patusca", seguindo aqui a descrição do Nelson Rodrigues. O que já estava bom, ficou brilhante. Volta para a estante.


Escrito por wooddays às 11h16 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Os fundamentos do caos

O artigo de Edward Lorenz, "Deterministic non-periodic flow", Journal of Atmospheric Sciences, volume 120 (1963), é considerado um marco na compreensão do clima e, mais ainda, no estudo de fenômenos caóticos. Está longe de ser ilegível para um leigo. Na verdade, na verdade, são usadas algumas equações diferenciais, sem solução definida, mas que permitem simulações numéricas. Havendo soluções com limites, as soluções numéricas também os têm. Aplicadas a um problema de convecção, as soluções numéricas são todas instáveis e quase todas não periódicas. O ponto relevante - hoje um clichê científico - é a extrema sensibilidade das soluções numéricas às condições iniciais. Variações aparentemente mínimas nos parâmetros geram soluções completamente diferentes, mesmo quando são bounded. Como é tecnicamente impossível fixar as "condições iniciais" de um sistema como o clima, Lorenz mostra como é frágil um exercício de previsão a longo prazo. Note-se que não é um problema de medição, mas de indeterminação.


Escrito por wooddays às 17h29 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Rumo ao Piauí

Teresina, aí vamos nós...


Escrito por wooddays às 09h32 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Ao comando do Departamento de Estado

Nada como ter amigos no Partido Democrata... Um lauto almoço por conta do governo dos Estados Unidos e duas horas de boa conversa. O pessoal Republicano geralmente vem com um agenda bem definida, faz perguntas diretas e gosta de respostas binárias; os Democratas ouvem com paciência, como um aluno de antropologia do Museu Nacional. Vive la differénce!


Escrito por wooddays às 15h32 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]



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