|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Anticapitalismo, doença francesa Outro livro que reencontrei atrás das estantes foi o célebre Mitologias, do Rolando Barthes, publicado originalmente em 1957. Minha versão, contudo, é em inglês, o que garante que certos aranzéis franceses podem ter sido filtrados pela tradução. O livro é bom, tem momentos inventivos, mas o anticapitalismo global do texto é, visto dos dias atuais, profundamente engraçado. A cultura francesa, depois de ter inventado a modernidade, parece estar em revolta permanente contra a razão, o bom senso e a realidade. Essa postura assegura bons momentos de invenção, mas, como lembram os cientistas da mente, isolamento leva à paranóia. Bom, o Deleuze chegou a escrever que a esquizofrenia era um produto do capitalismo... Fico imaginando aqui os produtos do socialismo... Escrito por wooddays às 11h26 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Simbologias simbólicas e outras aventuras do espírito humano Às vezes, de onde menos se espera sai alguma coisa. Fuçando na biblioteca, achei um velho presente da Cláudia, o Rethinking Symbolism, do Dan Sperber, editado na França em 1974 e na versão inglesa no ano seguinte. Fui dar uma lida porque caso tivesse alguma elocubração pré-pós-estruturalista sobre simbologias simbólicas ia para o cesto de doações de livros mantido por um posto de gasolina aqui perto. Puro preconceito: Sperber destrói os aranzéis da antropologia tradicional sobre simbologias de povos primitivos e sua ingênua sugestão de que estamos diante de construções complexas. Aquela velha ilusão de que um indígena perdido à margem da história, comendo carne mal cozida, tem uma "vida interior" mais complexa do que a do homem civilizado. Não chega a fazer como aqueles pesquisadores que desmoralizam as fraudes dos xamãs de beira de estrada, mas ele desmonta as ilusões sobre o simbolismo simbólico associado a certas práticas culturais. Vamos encarar os fatos: os seres humanos praticam atos sem qualquer sentido, por pura falta do que fazer ou miolo mole. Estava achando o máximo quando o Sperber aproveita umas dez páginas para desancar o simbolismo simbólico da psicanálise e as maluquices da interpretação dos sonhos, um esforço inglório para desvender a vida mental da "vizinha gorda e patusca", seguindo aqui a descrição do Nelson Rodrigues. O que já estava bom, ficou brilhante. Volta para a estante. Escrito por wooddays às 11h16 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Os fundamentos do caos O artigo de Edward Lorenz, "Deterministic non-periodic flow", Journal of Atmospheric Sciences, volume 120 (1963), é considerado um marco na compreensão do clima e, mais ainda, no estudo de fenômenos caóticos. Está longe de ser ilegível para um leigo. Na verdade, na verdade, são usadas algumas equações diferenciais, sem solução definida, mas que permitem simulações numéricas. Havendo soluções com limites, as soluções numéricas também os têm. Aplicadas a um problema de convecção, as soluções numéricas são todas instáveis e quase todas não periódicas. O ponto relevante - hoje um clichê científico - é a extrema sensibilidade das soluções numéricas às condições iniciais. Variações aparentemente mínimas nos parâmetros geram soluções completamente diferentes, mesmo quando são bounded. Como é tecnicamente impossível fixar as "condições iniciais" de um sistema como o clima, Lorenz mostra como é frágil um exercício de previsão a longo prazo. Note-se que não é um problema de medição, mas de indeterminação. Escrito por wooddays às 17h29 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Rumo ao Piauí Teresina, aí vamos nós... Escrito por wooddays às 09h32 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Ao comando do Departamento de Estado Nada como ter amigos no Partido Democrata... Um lauto almoço por conta do governo dos Estados Unidos e duas horas de boa conversa. O pessoal Republicano geralmente vem com um agenda bem definida, faz perguntas diretas e gosta de respostas binárias; os Democratas ouvem com paciência, como um aluno de antropologia do Museu Nacional. Vive la differénce! Escrito por wooddays às 15h32 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Como construir uma série infinita Não havendo um algoritmo definido para definir a soma de uma série, poderia parecer que tal esforço seria o produto de excepcional engenho. Há, contudo, outro caminho: podem ser produzidas infinitas séries de soma definida, graças a um procedimento trivial. Uma série S= S0+ (S1-S0) + (S2-S1)... pode ser estabelecida a partir de qualquer sequência nula Xn, definindo-se Sn=S-Xn para n= 0,1,2.... É o caso de Xn=1/n+1=1/2^n, com os termos multiplicados por S. Com apenas uma série com soma definida, infinitas outras podem ser construídas... Escrito por wooddays às 18h57 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Truque inesquecível Poucas operações bastam para mostrar que tan ^(-1) x = x-b3'x^3+b5'x^.... é válida para /x/ > 1 e, inclusive, para x=1 e x=-1. No caso de x=1, torna-se claro que π/4 = 1 - 1/3 + 1/5 - 1/7... Desse modo, o cálculo de pi pode ser reduzido a uma operação aritmética.... Há dias que me maravilho tolamente com essa equação. Escrito por wooddays às 00h59 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Derretimento da calota da opinião pública A foto mostra um Antonov do governo de todas as Rússias no aeroporto de Brasília. Não faço a menor idéia da razão de sua estada e, assim, sou vulnerável a explicações sinistras. Meu avião, em direção à decolagem, passou justamente ao lado do belo e poderoso pássaro. O akecimento global está perdendo rapidamente apoio na opinião pública, dessa vez nos Estados Unidos. O guia genial dos povos vai ficar ainda mais temeroso de propor algo naquela cidade dinamarquesa poupada pelos nazistas, mas eu só vou sossegar quando o Gordon Brown for para a lata de lixo de História. Ele já está perto, não vai escapar. Já marquei de ligar para Lady Thatcher nesse dia. A audiência da Fox News já cresceu 8 pontos desde que o guia genial dos povos resolveu mexer nesse vespeiro. Como o navio já partiu, Obama hoje diz que não perde o sono com o assunto. Bush passou oito anos sendo fustigado por aqueles jornais que vão desaparecer nos próximos cinco anos. Jamais negou entrevistas, ainda que tenha feito alguns gracejos. Há gente que julga os gulags a coisa mais escrota já inventada pela esquerda; discordo: para mim é a autoilusão de que representam a vanguarda da Humanidade e estão acima de críticas. Sórdido. Escrito por wooddays às 00h49 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O bom filho à casa torna Aproveitei a generosidade de um cliente e dei uma passada no Rio, após os eventos em Vitória. (A capital do Espírito Santo exibe uma paisagem ao mesmo tempo familiar e distinta, por conta da presença de vastos empreendimentos industriais em seu horizonte). Meu pai viveu uma semana de sustos, causados pela troca de um medicamento, e a família entrou em polvorosa: aos 73 anos, até resfriado é motivo de preocupação. Tudo estava bem, no entando, ajustado ao padrão de sempre com meu irmão finalmente seguindo o curso bíblico - tomarás mulher e deixarás a casa de seus pais. Há nisso uma lição: ele e a esposa gastaram dinheiro montando uma suíte no segundo andar da casa, bastante dinheiro para sinalizar que sempre estariam por ali. A vida tem suas gravitações e a suíte vai virando quarto de hóspedes. Não adianta se iludir com o brilho material das coisas. Foi também mais uma oportunidade de completar o carreto da antiga biblioteca. Peguei de volta o livro de Física do Resnick, uma edição de Sagarana do Círculo do Livro, outra dos poemas de Mário de Andrade, uma versão bilíngue de Ovídio, os poemas de Sá Carneiro e o clássico de Nestor de Holanda, A Ignorância ao Alcande de Todos (1962). Ficaram ainda meus livros de Eletrotécnica, um manual de Cabala e o Ferdinand Lot, O Fim do Mundo Antigo. Todos em português. Por volta de 1979, ainda lia coisas em português. Saudosos tempos. Nossos vizinhos de frente eram judeus e continuam sendo vizinhos. O patriarca, outro dia, encontrou-se com minha mão e comunicou, de forma marota, que tinha um sobrinho neto negro em Israel. Uma filha de seu irmão, vivendo na Terra Santa, se casou com um judeu etíope e tiveram um filho. Na comunicação, se misturavam várias maravilhas nacionais e internacionais: a abertura racial do Brasil, imposta mesmo aos judeus do país, efetiva mesmo em Israel, e a existência dos judeus etíopes, salvos por uma operação sensacional do governo. Um fato totalmente polifônico. Tenho um amiga estudiosa do judaísmo no Brasil, ela sempre notou a dificuldade de qualquer grupo manter sua identidade separada no Brasil. No Ceará, me contam, um português se transforma em brasileiro em menos de seis meses. É um tempo que leva um "empresário europeu" para cobrar e pagar propinas, arranjar a amantes e inventar lorotas. Escrito por wooddays às 10h00 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Blog difícil Carga pesada de trabalho e viagens segue afetando o blog. Não há tempo para ler, nem mesmo para resumir o lido, nem para comentar os dias que vão. Horas e horas no micro - ao menos por boa causa, trabalho efetivo. Ontem tive ao menos a satisfação de engatar um adorado texto de Borges - La duración del infierno - a uma observação literária admirável do jesuíta Jeremias Dressler: a equivalência entre o Inferno e o escrever sobre o Inferno. Uma comparação que também está relacionada ao problema dos infinitos enumeráveis e não-enumeráveis e, claro, às séries infinitas, cujo volume está quieto ali, à direita da mesa, esperando um resumo das leituras de viagem. É supreendente notar as conexões entre o problema teológico do Inferno e o conceito de uma série infinita, mas isso fica para depois, como escreveu Fermat. Escrito por wooddays às 15h23 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] It's the economy ou not? A afirmação de que o "argumento econômico" é sempre o fator decisivo em processos eleitorais morreu na eleição norte-americana de 2000. O PSDB, se tivesse miolos, deveria ler The 2000 Presidential Election and the Foundations of Party Politics (2004). O título é grandiloquente, mas as observações (e os gracejos sobre modelos de previsão de resultados eleitorais...) de Kathleen Jamieson são muito interessantes. O primeiro truque de Bush para abatar candidatos democratas flip-flop pode ser muito eficaz no Brasil. Quem tiver olhos para ler, que leia. Escrito por wooddays às 22h59 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O único intelectual que fundou uma cidade
Escrito por wooddays às 22h58 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Ceará abstrato, Camocim Escrito por wooddays às 23h31 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Grass Roots Livro para meia hora, High Tech Grass Roots. The Professionalization of Local Elections (2003), de J. Cherie Strachan, não resiste ao vôo de volta a Brasília. Quer examinar a difusão das técnicas modernas de campanha nas eleições locais nos Estados Unidos e seu impacto sobre os projetos de reforma eleitoral, sobretudo financiamento de campanha. Os dados mostram que a difusão é menos prevalente do que sugere uma avaliação impressionista e que seu impacto sobre os resultados eleitorais são ambíguos. De toda forma, ela reforça a seleção de candidatos entre indivíduos de maior status social e o privilégio da "incumbência". Em contrapartida, alimenta esforços de reforma e permitiu a emergência de legislação criativa no que se refere à limitação de gastos. A Suprema Corte começou a aceitar algumas dessas versões, quando se afastam do paradigma criado por Buckley vs Valeo. Vai para estante, mas posso doá-lo. Escrito por wooddays às 17h23 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Histórias de Sobral De forma certamente inesperada, passei a sexta-feira em Sobral, realizando uma lembrança de infância. Fã absoluto do grande comediante Renato Aragão, registrei para sempre a referência ao "cearense de Sobral". A cidade, de fato, é especial, tem identidade própria, tornou-se um centro industrial e educacional, possui vários museus, um parque de lazer junto ao rio Acaraú e exporta mão de obra qualificada para outros estados. Baianos presentes afirmaram que os sobralenses "se acham", mas, como afirmou o presidente Roosevelt, nunca subestime um jovem que se superestima. Nem tudo são flores, porém. Soube que Renato Aragão tem uma relação difícil com a cidade e que faltou mesmo a uma reunião histórica de seu clã. Não discuto rusgas de família - cada um tem as suas. Imaginava, porém, que Renato teria uma estátua na cidade; não parece provável. É melhor deixar as lembranças na infância e o Nordeste e suas mitologias preservadas aos olhos de um suburbano carioca. * Tentei postar uma foto do Teatro de São João, mas o blog do UOL não permite, está na últimas.
Escrito por wooddays às 12h18 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||