Reflexões no Paranoá  


Paraísos

No século passado, teve grande prestígio o paraíso socialista, uma espécie de colônia de férias para trabalhadores, dirigida pelo chefe de um departamento cultural. No século XIX, o demonismo de salão das classes médias criou o paraíso artificial, hoje reduzido às salas de fumantes nos aeroportos. No século XVII, os quietistas projetaram o paraíso interior, projetado pelo padre Paolo Massei em uma obra publicada em 1636. O retorno das figuras do espírito sempre surpreende. O chamado quietismo não deixa de ser uma forma de movimento hippie, pregando o abandono místico em Deus como uma forma de evitar os desagradáveis dilemas do livre arbítrio. Em lugar da responsabilidade, a passividade volitiva. Em lugar das meras drogas, a oração interior e o abandono místico. Naturalmente, havia também seitas, grupos separados, a ilusão da perfeição associada à falta de banho e de higiene pessoal. Está tudo no admirável trabalho do Maximo Petrocchi,  Il Quietismo Italiano del Seicento (1948, 2010).


Escrito por wooddays às 10h30 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





A ambiguidade da linguagem

A tarefa de um biógrafo de J.S. Bach é ingrata. De todos os artistas, talvez seja aquele com a razão mais desfavorável entre interesse intelectual e evidência documental. Certos procedimentos chegam a ser engraçados: os termos do contrato de organista em Halle, assinado por um outro organista, é examinado para servir de indicação sobre os motivos pelos quais J.S. Bach não assumiu o cargo. Peter Williams (J.S. Bach. A Life in Music, 2007) reconhece as dificuldades, mas avança, aqui e ali, com interpretações interessantes. Na página 105, ele ressalta um paradoxo sensacional: os acordes dissonantes que abrem a cantata 54 refletem a desagradável luta contra o pecado ou se referem à natureza venenosa do próprio pecado? A música obviamente pretende designar alguma coisa, mas uma exposição verbal do contexto revela sua ambiguidade fundamental. Não há como saber e só se percebe a existência de um paradoxo porque a música, evidentemente, é bela, sensual e instigante. Diante disso, oremos.


Escrito por wooddays às 12h46 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Sem memória

A Igreja de Santa Maria no Altar dos Céus não tem a fachada mais espetacular de Roma e sua escadaria foi palco de eventos sombrios. Seu charme é quase todo derivado de sua posição no Capitólio. Em outros tempos, acreditava-se que estava construída sobre o próprio templo de Júpiter, conquanto esteja realmente sobre o templo de Juno Moneta, aquela que adverte, de acordo com a lenda. Não há registros de seu construtor, nem de sua construção, atribuída vagamente ao século IV e à influência das autoridades bizantinas na antiga capital do Império. Traz a marca dos tempos: nenhuma coluna é igual a outra, todas sendo recolhidas de outros templos e construções romanas. Já tinha uma longa história no século XII, quando foi entregue aos frades menores por uma bula papal, junto com seu convento. Não é possível saber muito mais sobre esses séculos. O Panteão, pouco mais velho, é bem mais conhecido e compreendido. Sem memória, sem placas, sem comemorações, é uma daquelas veneráveis igrejas de Roma que simplesmente ali estão. Invisíveis no tempo sem memória, indexadas apenas pela fé em Jesus Cristo.

 


Escrito por wooddays às 10h09 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Aracoeli

O estudo sobre a igreja do "altar dos céus" custa 300 euros em um leilão. O pdf é baixado de graça do Google Books. Tempos fascinantes.


Escrito por wooddays às 19h11 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Em casa

Ouvindo o Mestre, em sábado sabático.


Escrito por wooddays às 19h06 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





A tola simplicidade

Terminei o Gregorovius no aeroporto de Porto Alegre, rindo de seu elogio à "simplicidade" clássica de Canova e sua condenação do barroco e dos espantosos túmulos de Urbano VIII e Alexandre VII, criados pelo gênio dos gênios, Gianlorenzo Bernini. O culto romântico da simplicidade é um negócio triste, capaz de apelar apenas aos bobos. Os pastiches de Canova não passam de cópias de cópias de cópias, enquanto a face torturada do Papa Urbano perdurará pelos séculos. Não tenho nenhuma simpatia por "simplicidades". Como escreveu Voltaire: "apenas a natureza deformada da Humanidade permite imaginar que a inocência seja uma virtude".


Escrito por wooddays às 19h05 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Indústria do passado

Gregorovius (1821-1891) foi um pesquisador e escritor de notável talento. No seu livrinho sobre os túmulos dos Papas (Les tombeaux des papes, tradução francesa de 1859), está testando sua pena para a grande história de Roma na Idade Média, que ainda escreverá. Não sobrou grande coisa, diz ele, de antes de Gregório I, o grande, chamado cônsul de Deus em seu epitáfio. Mesmo dos séculos oitavo e nono resta pouco. Na verdade, até o século XIV, a Igreja Católica tinha escasso interesse na preservação de sua "memória" e muitos defuntos foram retirados de seus sarcófagos para abrigarem outros personagens. Mesmo os que foram abrigados dentro das igrejas de São Pedro ou de São João frequentemente desapareceram de vista. A rigor, apenas depois de Júlio II (que o Deus dos Exércitos o abrigue em seu seio) é que pode ser notada uma indústria do passado, quando a nova basílica fica pronta. O surpreendente é que Greogorovius trate esses infaustos acontecimentos como sinal de uma incúria desnaturada. O século XIX acredita piamente na indústria do passado e sonha em recuperar os tempos idos. Isso quando o próprio século XIX quer deixar para trás os acontecimentos terríveis da Revolução Francesa. Passado é crença, o resto é arqueologia, ciência inexata e quase frívola, dedicada a ruínas que interessam apenas a meia dúzia. Sem a mão de Bernini, a verdade é que muitos papas teriam se recolhido no esquecimento, tal como os vampiros cadáveres ao final de Fome de Viver, a metáfora sobre a vítima principal do presente: a cultura pop. Dos papas dos séculos oito ou nove, é possível que tenha sobrado um osso ou um dentro. Dos famosos de então, dos seus poetas, de suas divas, de seus escândalos sexuais, não sobrou rigorosamente nada. Se sobrasse, não interessaria a ninguém. Pó de pó.


Escrito por wooddays às 16h26 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Vocação brasileira

A cada dia que passa, o atual governo, como o de FHC, torna-se mais conformado com o statu quo. Crescimento baixo, pouco acima de 2%, quando descontado o crescimento da população, indústria decadente, exportador de produtos básicos, o país se prepara para viver do bilhete de loteria encontrado nos mares do Rio de Janeiro. Parece uma figura literária. Se o petróleo tivesse sido encontrado no Nordeste, a imagem global seria quase a do Oriente Médio; sendo no Rio, cria-se um cenário à la Trinidad y Tobago: praias, petróleo e rent seeking. O Brasil caminha para realizar seu ideal: no conjunto das nações, ser um aposentado do setor público. Sem imaginação, sem ambição, terminará aderindo a um brizolismo tardio e chegará o dia em que condenará mesmo o PT, por algum motivo fútil qualquer.


Escrito por wooddays às 11h59 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Notas livrescas

* Gladstone, o premiê inglês, era também um sujeito de fina erudição, tradutor de Horácio. Fuçando aqui e ali, descobri um ensaio sensacional, o On Books and the Housing of Them. Basicamente, um conjunto de recomendações sobre a formação de uma biblioteca e em como organizá-la. Traz fofocas, como a vasta biblioteca de Lord Acton e a decisão de certo nobre de simplesmente acumular milhares de livros ao léu. Não recomenda a coleção de publicações de ocasião, mas insiste que as estantes devem ser fixadas nas paredes. Do contrário, exigem mais madeira, mais peso e mais espaço. O comentário mais delicioso é sobre arrumação de livros: "que possuidor de uma biblioteca, tendo ainda vida em seus membros, deixará outra pessoa arrumar suas estantes?", pergunta ele.

* Também terminei de ler no avião o Capricci sulla jettatura, do Marugii. Na verdade, na verdade, usa como fonte o livro do Valeta, mas o assunto é de interesse prioritário. Jettatura é o termo italiano para mau olhado, a única superstição universal da Humanidade. Como seu supersticioso, acredito piamente nas provas científicas do fenômeno e tomarei os cuidados recomendados pelo Maruggi. O primeiro deles, manter distância de frades e de mulheres altas. Cruzes.


Escrito por wooddays às 21h19 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Quietismo

Há algum tempo já alimento a sensação de que filosofia cansa: seu exercício implica um heroísmo existencial que não é mercadoria simples de achar. Não é possível imaginar que aguma forma de iluminação venha da mera passividade mental. As práticas religiosas, nesse sentido, apelam a um número bem maior de pessoas. O Maximo Petrocchi (Il Quietismo Italiano del Seicento, 1948, 2010) discute uma dessas modalidades: a mera entrega do pensamento em troca da possibilidade de uma contemplação de Deus. O Quietismo, naturalmente, tinha sua face herética: Deus não está obrigado a se revelar por conta de um mero gesto da vontade humana. O desenvolvimento espiritual é o resultado de um luta interior, que pode ou não, gratuitamente, ser retribuída pelo Senhor. Na vida comum, conheço muita gente que se entrega ao mero fluxo dos eventos, sem pensar, sem refletir, à espera da felicidade. São quietistas modernos, gente que seria verberada pelo jesuíta Segneri ou por Karl Marx.


Escrito por wooddays às 17h06 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Estava me animando...

... a voltar com o blog, mas já tem viagem amanhã e discurso a escrever, hoje ainda, para um evento a que não poderei ir.


Escrito por wooddays às 20h09 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Situação

Meu último posto no blog do Segneri tinha sido em 26 de fevereiro. Essa é bem a situação criada por dois meses de viagens doidas pelo Brasil. E eu achando que a ponte aérea Rio-Brasília do ano de 1998 tinha sido a última aventura pelos céus...


Escrito por wooddays às 22h19 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





O mar do Ceará


Escrito por wooddays às 21h52 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Stanislaw Ponte Preta vindicado

No avião terminei de ler o livro do casal Tolchin sobre patronagem política nos Estados Unidos. As diferenças com os fatos brasileiros são poucas: lá a estrutura partidária valida os desmandos e, se o sujeito for pego, vai para a cadeia. Cana leve, mas vai. Stanislaw Ponte Preta sai justificado: mamata é apenas um bom negócio para o qual você não foi convidado. 


Escrito por wooddays às 16h30 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Limoeiro, Morada Nova

O evento era em Morada Nova, mas o melhor hotel ficava em Limoeiro, onde passei a noite. A vinda, à noite, foi pouco interessante, mas a paisagem matinal entre as duas cidades era a clássica paisagem do sertão. Caatinga, pequenos lagos, pedras salientes, vacas leiteiras, amplos bosques de carnaúbas. Tudo muito verde. Em Morada Nova, escrevo de uma espetacular escola profissionalizante, tinindo de nova, obra do governador Cid Gomes. Encontrei por aqui um ex-deputado federal, hoje secretário de estado, a quem muito aprecio. Grande figura humana, direta, simples, com mais de 80 mil votos na algibeira. Sem uma boa chapa, acabou fora da Câmara, mas sua liderança é reconhecida pelo governador. Almoço tradicional em churrascaria: linguiça, arroz e inhame. Como diz o Alan, minha vida é andar por esse país...


Escrito por wooddays às 16h26 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]



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