Reflexões no Paranoá  


Cansei do UOL, fui para o blogspot

http://reflexoesnoparanoa.blogspot.com.br/


Escrito por wooddays às 13h18 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Juca Paranhos

A Vida do Barão do Rio Branco, do Luís Viana Filho, não chega a ser uma bigrafia moderna. Seu uso das fontes é pontual e há pouco material estrangeiro. Aqui e ali, literatura ajuda a encher as páginas. Ainda assim, é uma delícia de ler, pela personalidade do Barão, pelos tempo, pelas fofocas políticas. Grande brasileiro, grande obra.


Escrito por wooddays às 17h29 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Inteligência maquiaveliana

A coletânea organizada por Andrew Whiten e Richard Byrne é, na verdade, uma sequel. Publicada em 1997, Machiavellian Intelligence II, volta a examinar, de forma mais aplicada, a hipótese original. A inteligência primata teria sua origem na necessidade de lidar com a complexidade de sua vida social, marcada por uma estranha mistura de seleção sexual e jogos de dominância e reputação. A mente primata seria uma sofisticada usina maquiavélica, sempre armando algum esquema para comer, viver e transar melhor que os outros. Como reconheceu um dos autores, a hipótese não é rigorosamente passível de teste e talvez dependa de um conceito vago de complexidade, mas impressiona sua capacidade de gerar perspectivas, interpretações e outras agendas de investigação. Fiquei impressionado com a análise de Gerd Gigerenzer em The modularity of social intelligence, que oferece um ponto de vista bastante razoável para compreender o impacto da evolução sobre a inteligência primata. O artigo de Esther Gody, Social intelligence and language: Another Rubicon, se aproveita desse ponto de vista para construir uma teoria igualmente inteligente para a emergência da linguagem, um fenômeno relativamente recente na vida humana. Excelente livro. Fica na estante.


Escrito por wooddays às 20h50 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





O Livro de Areia

Leio fascinado que o célebre "Livro de Areia" do conto borgiano não tem qualquer condição matemática de existir, pois nenhum tratamento matemático consegue produzir uma quantidade infinita a partir da soma, mesmo infinita, de quantidades infinitesimais. O problema está sempre no infinito, que é algo distinto, separado. Seu livro de areia, no máximo, teria frente sem ter atrás. Como o Disco, outro objeto de sue invenção. Borges encontrou nos paradoxos do infinito uma fonte de metáforas deliciosas da finitude e da inanidade.


Escrito por wooddays às 23h34 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Observação importante

"Os eruditos negam a existência de fantasmas e espíritos, mas admitem que maravilhas acontecem." (Sima Qian, o Grande Historiador).


Escrito por wooddays às 11h49 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Mais um livro

Semana de trabalho intenso, três, quatro páginas por dia, para compor um novo livro. Não é nada acadêmico: experimento e especulação sobre o futuro. É curioso escrever sem a pressão de testes estatísticos ou de base documental extensa. A sensação deve ser a mesma do comandante ideal: identificar na massa de fatos aquele que é relevante e apostar todos os seus recursos nesse fato. Depois que termina, é como a corrida: ofega-se um pouco, depois, um certo vazio. Engraçado saber que os bancos, para os eleitores, são mais confiáveis que a presidência da República. O Ibope mostra, aliás, que não é de hoje.


Escrito por wooddays às 11h46 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Meu querido diário

Mês difícil, junho entre todos. Primeira semana tentando ficar vivo, segunda semana no exterior, terceira semana tomando conta da casa. Livros que não chegam, livros que são lidos, uns esquecidos, outros para sempre na memória. Não tantos como na biblioteca de Babel, ainda assim. Escrevendo, nulla dies sine linea, missões, viagens, convenções partidárias, ária na vitrolinha dizendo como passam os dias da vida. Ah! O Mestre e a Margarida: coisa boa de saber que existe, mesmo cheia de gatos pretos. Muitas risadas, que talvez tenham irritado a moça na poltrona ao lado, no avião. Sei lá, pode ser apenas uma impressão.


Escrito por wooddays às 11h25 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Lembrança de Santiago

Esperava mais do Hernán Buchi. De saída de Santiago, comprei La transformación económica de Chile. El modelo del progreso (El Mercurio, 2008) mais como lembrança da breve visita, mas gostaria de ver detalhes e fofocas da reforma econômica do governo Pinochet. Buchi foi tudo, de assessor do ministério da Economia a ministro da Saúde e da Fazenda, concorreu às eleições presidenciais contra Alwyn, mas o livro é o vade mecum da reforma liberal na América Latina. O de sempre em matéria de lobbies de classe média, sindicalismo estatal e outras mazelas latinoamericanas. É verdade que todo o pacote de ideias se tornou mainstream desde os anos 1980. Não dá para vender como novidade. Ainda assim, falta carne no livro. Vai para o Lago Norte.


Escrito por wooddays às 23h51 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Dois amigos

Song Jiang não é Aquiles, nem Robin Hood. Um modesto funcionário, que procura ajudar a todos, na medida de seus meios. Preso em uma trama, comete um crime, mata uma mulher infiel e é condenado à morte. Salvo por renegados, torna-se um renegado, eleva-se a comandante dos renegados. Bravo, mas sente o peso do comando. Chora, hesita, consulta seu melhor amigo, pensa nos outros. Jurou fidelidade ao Imperador e cumprirá seu juramento até o fim. Isso é o que leio. Chin Sheng tan não crê: acha desde sempre que Song Jiang aspira ao poder, finge e dissumula. Sugere que seu coração compassivo é apenas tática, esquema, estratagema. Por isso, talvez, lhe retira o final digno e encerra sua edição no banquete dos 108 e no sonho de Lu, o Unicórnio de Jade. Chin Sheng tan não quer supor o melhor do humano em um chefe de renegados, em um criminoso. A vida não perdoou o crítico e Sheng tan tornou-se uma renegado, condenado à morte. No dia de sua morte, esperou que Cao Ghai o salvasse?


Escrito por wooddays às 19h39 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Tem de melhorar

Há tempos a noção de limite me incomoda. Como notaria o bispo Berkeley, ela supõe o que deveria provar. Comprei o livirinho do Gilbert Arsac, Cauchy, Abel Saidel, Stokes et la convergence uniforme. De la difficulté historique du raisonnement sur les limites (2013) para saber o que a academia anda escrevendo sobre isso, mas é uma mera aplicação de lupa à questão da convergência uniforme. Um detalhe a mais nas complicações da noção de limite. Arsac nota (pág 151) que a convergência uniforme é um bom teste dos conceitos de limite no início do século XIX: há problemas lógicos e conceituais e mesmo a noção do que é uma função contínua é incerta. Weierstrass vai resolver tudo, garante o autor. O livrinho (pouco mais de 150 páginas), contudo, é quase uma nota do trabalho do Dugac, que já mandei vir, mas ainda não chegou.


Escrito por wooddays às 11h28 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Amazonas

O livro de Miguel Gustavo Torres, O Visconde do Uruguai e sua atuação diplomática para a consolidação externa do Império, foi publicado em 2011 pela fundação do Itamaraty, a Alexandre de Gusmão. Sinal de que o texto não tem pesquisa original e compila material já publicado ou fontes conhecidas. Basicamente, as idéias da Gabriela, mais a biografia do Visconde por seu neto. De útil, apenas um resumo de seu tratamento da questão do Amazonas, que eu não conhecia em detalhe. Bom resumo. Vai para o escritório.


Escrito por wooddays às 11h14 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Tehilim

Há tempos procurava um comentário dos Salmos e encontrei o livro do Artur Weiser em Rio Branco. Pareceu-me sério, o sujeito era professor em Tubinga e tal. A versão em português é de 1994 e a tradução segue a chamada Bíblia de Jerusalém, bem mais coloquial que a de João Ferreira de Almeida. O comentário é fraco. Sem literatura comparada, sem análise literária ou histórica, Weiser parece preocupadíssimo em garantir a origem pré-exílica dos textos, sabe-se lá por qual motivo confessional. Suas ilações litúrgicas também estão distantes do consenso. Escrevendo do ponto de vista do Cristianismo, tudo é profecia, mesmo quando escrito seiscentos anos antes do nascimento de Jesus. Aprendi pouco e comprei outro comentário que ontem mesmo lia com proveito, com explicações etimológicas e tradução adequada à lírica hebraica, sem almas e salvações anacrônicas. Vai para o escritório.


Escrito por wooddays às 11h10 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





A Hundred Verses from Old Japan (1909)

"As cerejeiras florescem
nos altos de Takasago;
oh nenhuma névoa dos montes venha
nuvens brancas e suaves;
as esconderem da vista".

(Oe no Masafusa).

 

É exatamente como Borges descreveu. Um livro cheio de poetisas.


Escrito por wooddays às 22h55 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





Vodka

A History of the Jews in Russia and Poland (tradução em inglês, 1918) é a narrativa clássica de Simon Dubnow. Terminei o primeiro volume (reimpressão de 1946), que vai até o czar Alexandre e já mandei vir o segundo. É uma dura história de violência, intolerância e injustiça. Difícil de ler. Mas também registra os momentos de luz e razão que a fé no Deus único eventualmente produz. Um dos aspectos interessantes da história toda é o nicho econômico entregue aos judeus na Europa Oriental. Os nobres poloneses, lituanos, ucranianos e russos tinham o monopólio da venda de álcool aos camponeses, mas terceirizavam essa atividade para os judeus. Não era lá grande coisa, mas permitia uma existência baseada no comércio. Obviamente, quem vende álcool é que é o culpado de seus males, não quem o consome, quem recolhe impostos, etc. Começo a perceber lentamente os vastos "regimes de drogas" dos últimos séculos. Outro dia escrevi sobre o ópio na China; agora recolho no Dubnow os detalhes sobre o álcool no mundo eslavo. Intoxicação permanente de nobres e camponeses.


Escrito por wooddays às 11h09 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





É a máquina

A lista de autores é longa: Susan Stokes, Thad Dunning, Marceo Nazareno e Valeria Brusco. A razão é simples: um projeto conjunto de estudo do clientelismo envolvendo Yale e universidades argentinas. Brokers, Voters and Clientelism. The Puzzle of Distributive Politics (2013) parte de uma premissa muito interessante: como se explica o paradoxo da compra de votos? Afinal, quem compra recebe um benefício muito maior do que quem vende. Além disso, quem vende é quem já vendeu. A resposta é fascinante: o modelo está errado. O foco do clientelismo não é o eleitor que vende o voto, mas os gerentes da operação de compra. No Brasil, os cabos eleitorais e os comissionados dos governos. São eles que controlam a informação relevante (quem vota e quem vende) e que podem embolsar a comissão que desejarem. Muito superior, por sinal, a qualquer coisa que os eleitores podem receber. Por isso, também as máquinas somem com o tempo: basta que os políticos comandem a informação relevante sobre os eleitores. O estabelecimento de programas impessoais completa o processo, fazendo desaparecer o cash nexus da política eleitoral.


Escrito por wooddays às 22h21 [   ] [ envie esta mensagem ] [ ]



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